A TV Digital e o Mito da Caverna

Artigo escrito por: Fabiano Pereira

O mito

Platão, esperto e sábio como poucos, criou uma bela alegoria sobre visões limitadas, fuga intencional (ou não) da realidade imediata e como algumas pessoas podem colaborar para que o bem comum ganhe. Ou seja: a pessoa de visão, que tem uma percepção diferente do mundo, que não tem medo (ou controla o medo de forma eficaz), pode fazer a diferença em compartilhar com todos (ou, pelo menos, com quem estiver mais próximo), a tal “nova visão de mundo”, proporcionando assim um crescimento de todos, ou daqueles que se livram das amarras e acreditam no novo. Ou que aquilo que sempre acreditaram ser a mais absoluta verdade não passava de sombras numa parede escura de uma caverna fria e úmida, porém confortável (notem bem, “confortável”), já que não conheciam outra realidade, mesmo.

Como podemos saber se estamos numa boa situação se não conhecemos outras realidades e experiências?

O mito da caverna conta a história de pessoas que viviam no interior de uma caverna, desde suas infâncias, e de lá nunca saiam.

As pessoas, acorrentadas, só conheciam o mundo externo por meio de sombras que eram projetadas no interior da caverna, ou seja, a visão do mundo externo era uma visão totalmente distorcida e limitada, pois se resumia as sombras diversas.

Imagine: um pequeno rato tomava as dimensões de um terrível monstro, os homens pareciam gigantes, tudo muito diferente e aterrador.

Um dos homens resolveu sair da caverna. Construiu um artefato rudimentar, conseguiu quebrar as correntes, subiu à superfície e vislumbrou a realidade.

Após ter visualizado e vivenciado um pouco do “novo” mundo e ter tido a certeza que a realidade era, de fato, simples, voltou à caverna e convidou todos a subirem, na alegoria perfeita da função do filósofo: mostrar a verdade, clarear as sombras.

A TV Digital (ou não)

A vida, interpretada pelas sombras, traduzia uma realidade diferente da verdade.

Na TV (que não pretende salvar o mundo; na melhor das hipóteses, salvará a verba do cliente), existem diversas ferramentas e meios para se comunicar conceitos, normalmente de forma visual. A utilização de diversas técnicas diferenciadas torna a televisão sofisticada, atual, moderna, “up”.

Mas a vida segue lá fora.

Ao expressar ou recriar, seja qual for o meio, um estilo de vida diferente da maioria, ao “agregar valor” a um produto qualquer por meio de recursos visuais bem desenvolvidos, há sempre a tendência de tirar o ser humano de seu meio real e leva-lo para outra realidade.

No final das contas, estaremos cercados de sombras, expostos em realidades estranhas às nossas, fornecendo visões deturpadas de vida para muitos, vendendo a idéia final do conceito superior, defendido como a verdade absoluta dos praticantes da profissão.

Sendo meramente estético, sem conceitos, ou cheio de significados, a televisão, em qualquer um de seus desdobramentos, é a “ferramenta das sombras”, traduzindo regras gerais para todos, implantando conceitos de belo e feio, de moderno e ultrapassado, de funcional e inútil.

A televisão digital é o aperfeiçoamento das sombras. Agora, os acorrentados, na frente dela, terão acesso ao maravilhoso mundo das “sombras interativas”, podendo mandar mensagens, interagir, decidir horários para a apresentação do “grupo de sombras” favorito, que tal adquirir aquela moto-sombra fantástica? E sem sair da caverna! Parcelado no cartão! É bem verdade que você nem vai usar a moto dentro de onde está, mas, e daí? O importante é consumir!

Conclusão

Há o amor, também há o ódio, cada ação provoca uma reação normalmente contrária, muitas vezes em cadeia.

A televisão digital pode ser utilizada para melhorar a vida de todos, apresentando propostas inovadoras de programação, estimulando o pensamento crítico, facilitando o acesso para cultura e informação à todos. Mas, provavelmente, nada vai mudar.

Se, na concepção original, o mito da caverna pode ser traduzido no dilema de muitos que não conhecem a verdade, a televisão pode, na mesma proporção, disseminar sombras eternas, ou, quem sabe, lançar luzes sobre as mesmas.

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